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Filme ‘Corpo’ por Rossana Foglia e Rubens Rewald

maio 23, 2008

Diretores do filme Corpo

O mundo em Corpo é construído por e através de Artur. É ele que nos guia, a partir de seu olhar e sua melancolia. Imergimos em sua rotina, seu imaginário. Artur olha para os corpos, vivos ou mortos. Não há morbidez no olhar. Os corpos mortos podem ser olhados por nós, assim como a maneira que os legistas lidam com eles. A vida contemporânea esconde a morte, mas ela existe, e muitos lidam com ela diariamente. Artur olha para um cadáver e elabora sua própria causa mortis.
A sala de necropsia é o espaço central desse mundo. Para construí-la, buscamos elementos mais representativos da relação sensorial de Artur com este espaço. Estão presentes o contraste entre o aço inox e o calor que se esvai dos corpos, as paredes verdes e o vermelho do sangue, a umidade como resquício de vida e o apoio de cabeça, que em uma repartição pública em São Paulo pode ser algo improvisado. As cores são predominantemente dessaturadas e frias para se criar uma representação da morte associada à precariedade, burocracia e tristeza de Artur, em contraste com o mundo de excessos da personagem Fernanda e do espírito “pop” e libertário dos anos sessenta e setenta. Fernanda rouba calcinhas em um loja descolada.
Optamos por uma decupagem precisa, que estabelece o olhar de Artur, não só em relação aos corpos, mas também na criação de um clima de vigilância e censura, através de um recurso simples: as personagens olham para a câmera. Olham para quem as observa. Artur. Ele observa, sem ser visto, por trás de copos, janelas, portas e, furtivamente, em vagões de metrô. Há um jogo constante entre o observar e o ser observado. A socióloga Teresa Prado Noth observa o banho de seu jovem amante.
Quando surgiu o projeto, a intenção era enfrentar duas experiências históricas: a contracultura e os movimentos de esquerda mais radicais experimentados durante o período da ditadura militar no Brasil. Esse período está começando a ser revisto, deixou seqüelas, apesar de ser considerado superado. A contracultura também é considerada superada, como vivência e manifestação artística. O filme trabalha com a idéia de interrupção e censura em torno desses movimentos, justapondo as idéias do passado ao presente. O “nonsense” sem ideologia da atriz Fernanda dialoga com o abandono da própria identidade da guerrilheira Teresa; os procedimentos repressores de um regime ditatorial dialogam com as dificuldades diárias que Artur enfrenta na repartição pública onde trabalha, conseqüências de um excesso de pragmatismo, eficiência, burocracia e corrupção, imposições do contemporâneo. Queremos abordar a História de uma maneira diferente, não como uma reconstituição de fatos, mas buscando os vestígios do passado no presente, resíduo ainda a ser resolvido. A Dra. Lara é acossada e interrogada no banheiro por Artur e Fernanda, numa ação inútil.
A narrativa é lacunar, pois acreditamos que o espectador pode sempre ser chamado a completar um quebra-cabeças, assumindo um papel ativo, de espectador jogador. Seja bem-vindo…

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3 comentários

  1. Parece no minimo interessante.


  2. Esse filme também promete. Acho que ele ainda não chegou ao Rio. Estou bastante curioso. Parece-me que tanto o “Corpo” quanto “Era uma vez…” serão os grandes filmes brasileiros deste ano.


  3. Você parou de postar no blog?



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